Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 30 de maio de 2007

Futebol!

Continua não adiantando querer passar o carro na frente dos bois

por Vítor Matos

O Brasil é dado a arroubos de vanguardismo. Deve ser sintoma do complexo de inferioridade próprio do terceiro mundo, ou simplesmente o calor dos trópicos, vai saber; o fato é que, por aqui, o povo adora uma boa inovação, seja lá para o quê ela vai servir.

O chato da história é que às vezes a novidade é avançada demais para nossos cérebros provincianos. Acontece, por exemplo, com os caixas-eletrônicos. Qual é a necessidade de adotar máquinas tão sofisticadas se o grosso da população - quando sabe distinguir os números e (milagre!) ler o que passa na tela – se embanana no duelo com o teclado? Não adianta fingir ares de nação desenvolvida, posar de século XXI, enquanto a mentalidade reinante continuar apontando para tempos medievais.

Com isso chegamos ao cerne da coluna desta semana. Anos atrás, o leitor vai lembrar, a CBF começou a incorporar mulheres para integrar seu quadro de arbitragem. Uma atitude ousada, pioneira, ainda mais se levarmos em conta o machismo que impera no futebol. Pois bem, uma dessas moças, a bandeirinha Ana Paula de Oliveira, acabou se destacando no cenário nacional, a ponto de estar a um bom tempo trabalhando nas principais competições do país. Ana Paula virou personalidade do nosso futebol.

Mas o Brasil nunca esteve preparado para Ana Paula. É bem verdade que até nos esforçamos para lidar da forma mais natural possível com a inovação que ela representava. Tentamos abafar nossa veia machista e retrógrada, lutamos pra calar nossos preconceitos, nos digladiamos com nossa ignorância, mas perdemos a batalha. As avaliações sobre Ana Paula raramente foram parciais, raramente refletiram a realidade, porque no afã de conter o preconceito, os comentários eram forçadamente simpáticos à moça.

Ana Paula é uma bandeirinha competente. Só que, quando acerta, seus feitos são supervalorizados, e vende-se uma falsa imagem de que ela seja excepcional. Quando erra, como aconteceu no jogo Botafogo e Figueirense, as críticas são igualmente exacerbadas e destoantes da realidade. Pior, escancaram o lado atrasado e preconceituoso de muitos brasileiros. As ofensas feitas a ela após a partida remetem à mais sombria e selvagem das tribos bárbaras.

O dia que o Brasil estiver realmente preparado para os avanços que ele gosta de ostentar, a bandeirinha Ana Paula passará a ser julgada pelos seus méritos e defeitos no exercício da profissão, independentemente do fato de ser mulher.

3 comentários:

Araujo Souza disse...

"As avaliações sobre Ana Paula raramente foram parciais, raramente refletiram a realidade, porque no afã de conter o preconceito, os comentários eram forçadamente simpáticos à moça."

Posso estar errado, mas parece que o autor quis dizer "imparciais", em vez de "parciais".

Mel Bleil Gallo disse...

Apesar de concordar com o que foi dito acerca dos julgamentos um tanto extremistas à Ana Paula, não acho que as coisas sejam bem por aí.

É quase como dizer que só se pode discutir a questão da Universidade quando tivermos 'ajeitado' o Ensino de Base - ignorando, nesse meio tempo, todos aqueles que são atualmente prejudicados pela elitização e burocracia do vestibular.

Ou, por exemplo, que não adianta cogitarmos a implementação de programas e medidas políticas eficazes, pois sempre vai ter alguém corrupto para deturpá-las (como se a corrupção fosse o único problema no Brasil, e não o descaso dos políticos e a burocracia sufocante).

Enfim, o que quero dizer é que esperar pelo "dia que o Brasil estiver realmente preparado" para começar a atuar de forma mais vanguardista (heheh) pode levar muito tempo, e que - quem sabe - essa preparação só virá caso antecedida por medidas inovadoras frustradas, como a de Ana Paula.

=)

Anônimo disse...

Ia escrever o meu comentário, quando li o que a Mel disse. Então, percebi que ia escrever alguma coisa no mesmo tom. Uso então, esse espaço para concordar com ela.

Ah! E o Brasil não é dado a arroubos de vanguiardimos. Não mesmo!

E "simplesmente o calor dos trópicos" remete a uma teoria cintífica que buscava, embasada nesse fator climático, justificar o fato de a escravidão existir, uma vez que os "tropicais" possuiam debilidades intelectuais em razão do sol em demasia nas cabeças.