Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 8 de novembro de 2006

Futebol!

O Gato de Chuteiras
por Vitor Matos

A modernidade me cansa. Parece uma sina da humanidade: quanto mais avançamos, mais as coisas perdem seu charme. Vê as guerras. Antigamente eram o tropel dos cascos, as flâmulas ao vento, as flechas singrando o ar, o sangue nas colinas. Hoje, aperta-se um botão, kaputz! A gente morre sem poesia. E não só as velhas batalhas foram fagocitadas pelo passar dos anos. Também a serenata à janela da mulher amada já não é a mesma. No lugar dos violões e bandolins, aparecem as potentes caixas de som na carroceria da pick-up. Sem elegância, sem graça. Nessa caminhada ao abismo, nem os contos de fadas são deixados em paz. O Gato de Botas, dos irmãos Grimm, por exemplo, é uma mera centelha do passado. O mundo já inventou a melancólica figura do Gato de Chuteiras.

Na gíria futebolesca, gato é aquele jogador que burla seus registros para declarar uma idade inferior à sua verdadeira. É mais ou menos o que faz a Hebe. O garoto chega pra se inscrever no Flamengo, barba no rosto, cinco filhos no currículo, e declara ter 14 anos. O atleta apela para esse subterfúgio ― uma palavra que aprendi ontem, com meu amigo Sapão ― porque assim ele pode destacar-se com mais facilidade nas categorias de base. Imagine um jalagão de 25 anos disputando um torneio entre os mirins. É o Tarzan contra os jacarés. Que pérfidos ardis pode elaborar a mente humana!

Pois o Campeonato Brasileiro desse ano já tem o seu Gato de Chuteiras. Carlos Alberto, meio-campista do Figueirense, teve sua adulteração de idade delatada ontem, em matéria da Folha. O rapaz foi dormir com 23 anos e, no dia seguinte, descobriu-se que ele, na realidade, tinha 28. Coisa absurda, rapaz! Equivale a fazer 5 aniversários em menos de 24 horas! Mas parece que Carlos Alberto não vai ganhar festinha, pelo contrário. O Figueirense já o afastou do elenco e ele ainda pode ser condenado, no STJD, a uma pena de dois anos longe dos campos. Essa ducha de água fria não podia vir em pior hora. Carlos Alberto vivia sua melhor fase na carreira e estava cogitado até para defender o São Paulo no ano que vem. Agora, seu futuro como jogador, além de ter sido encurtado em cinco anos, fica seriamente comprometido.

Não o censuremos, porque Carlos Alberto é apenas um produto da nossa era da sem gracice, como as guerras de mísseis e as pick-ups. Todo mundo hoje quer dar uma driblada no tempo. O presidente aplica botox. O iogurte tenta maquiar o prazo de validade. A atriz resolve comemorar aniversário só em ano bissexto. Os adultos decidem prolongar a adolescência até os trinta, e tem uns cientistas que ainda dão apoio. Em suma, uns mais, outros menos, estamos sempre dispostos a assumir uma idade que não seja a nossa.

O próprio Brasil é um gato. Se diz um país do futuro, mas já dá sinais de velhice.

Reflexão com torradas:
Assistia ao filme “O Dia Depois de Amanhã”. A situação climática era caótica nos Estados Unidos. Tempestades de neve, maremotos, ventos de todos e tipos e toda uma seleção de catástrofes naturais assolavam o território. Milhares de norte-americanos, em busca de salvação, corriam para atravessar a fronteira e ir pro México, país que ainda não havia sido atingido pelas desventuras metereológicas. Pois bem. Se Bush tivesse construído o tal muro, para aonde iriam os desesperados do filme?

Lembrando que o projeto do muro não é pioneirismo do Bush. O Flamengo já teve essa idéia em 1997, quando escalou Júnior Baiano e Ronaldão na zaga.

Um comentário:

Ana Paula disse...

Demais!!! Simplesmente adorei seu texto de hoje!!! Cheio de ironias e muito bem humorado, característicos de seu estilo de escrita! Muito bom! Vc vai longe, Vitor!!!

Bjuuuuuuuuuus,
Ana Paula