Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Futebol

O Canal Cento e Vinte e Oito
por Vitor Matos

Brasília, 24 de outubro de 2006

A coluna de hoje veio à luz enquanto eu estava numa birosca chamada “Bar do Jessé”. Na mesa comigo, quatro dos melhores exemplares da raça humana. Não sei bem, mas parece que discutiam algo como o Estado mínimo ― ou seria salário mínimo? O certo é que a conversa pouco me interessava. Aliás, quase nada me chama a atenção ultimamente. Há semanas que todo meu ser se concentra só nele: um dilema, uma pedra no meu sapato, um algoz, um entrave que me tira sono. O leitor que tiver a paciência de ir até o fim, descobrirá do que estou falando.

No domingo assisti a Grêmio e São Paulo. Uma pelada desclassificada, chula, até. Era uma final antecipada. O estádio Olímpico lotado, as duas equipes dispostas a jogar pela vitória. Os ingredientes eram consideravelmente promissores. O que se viu, no entanto, foi uma partida muito mais acirrada e truncada do que um jogo bonito e tecnicamente bem disputado. Como nenhum dos dois times têm craques, predominou o melhor conjunto do tricolor paulista, mais organizado e mais entrosado. Digamos que o empate foi justo, porque o Grêmio mostrou muita disposição e empenho ao longo do jogo. Mas o São Paulo ― agora, mais do que nunca ― já é campeão.

Só que eu não queria ter visto Grêmio e São Paulo. Longe disso. Meu intuito no domingo era, francamente falando, acompanhar o grande clássico espanhol Real Madrid e Barcelona. Mas, infelizmente, esse era um sonho ambicioso demais para o meu caminhãozinho. Porque as melhores partidas do Campeonato Espanhol já não se encontram a um leve clique do controle remoto. A mamata acabou. Agora é preciso ser assinante do Canal Cento e Vinte e Oito da SKY. Fiquei a ver navios.

Tal é o meu inimigo. Uma emissora que nem nome tem. Canal Cento e Vinte e Oito. Simples assim. Um número, frio, descarnado, cruel, dois elevado à sétima. Ele deixou milhões de brasileiros órfãos. Pessoas que, como eu, costumavam passar suas tardes de domingo chupando picolé e vendo os astros do futebol internacional engalfinharem-se nos gramados da Europa. Amigos, eu digo Europa, e não apenas Espanha, porque o tal do Cento e Vinte e Oito detém também os direitos do Campeonato Italiano, o meu segundo predileto. O que mais vão me tirar? O que mais vão me tirar?

Todo domingo de manhã, antes de dizer bom-dia àqueles que acordam na mesma casa que eu, abro o caderno de esportes. Lá tem uma agenda esportiva dizendo quais serão os jogos do dia e por qual emissora eles serão transmitidos. Estou cansado de encontrar coisas do tipo: “Real Madrid x Barcelona: 16 horas – Canal Cento e Vinte Oito(SKY).” Ou ainda “Milan x Lazio: 12 horas – Canal Cento e blá, blá, blá...”. Chato, muito chato.

Privatizar a Vale, vá lá, a gente tolera. Privatizar a telefonia, tudo bem, foi bom que a Ana Paula Arósio começou a aparecer em tudo que era propaganda. Privatizar o Banco do Brasil? Que seja. Nada está ruim o bastante que não possa piorar um pouco mais.

Só não dá pra suportar essa privatização do futebol.

P.S.1: Segunda-feira comemorou-se o centenário do primeiro vôo do 14-bis. Rendo aqui minhas homenagens a Santos Dumont. Junto com Leônidas da Silva, o inventor da bicicleta, ele foi o brasileiro mais importante para a área dos meios de transporte.

P.S 2: Se Santos Dumont é o pai da aviação, seria o 14-bis avô do Aerolula?

P.S.3: Alberto Santos Dumont também inventou o relógio de pulso. Por que o pai da aviação se preocuparia com uma bobagem dessas, perguntarão os incultos. É que para Dumont, o tempo voava.

Um comentário:

André Souza disse...

Sou um dos "quatro dos melhores exemplares da raça humana" que ele cita. Mas fica a dúvida: seria isso uma ironia?