Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 19 de julho de 2006

Coluna - Futebol

O complexo de Jó
por Vitor Matos

Semana passada, usei o espaço sagrado dessa coluna para tratar sobre um mal que assola o brasileiro, a Síndrome da Telenovela. Hoje, continuo na linha psico-social. Apresentarei aos meus leitores o Complexo de Jó, desvio catalogado por um grade amigo meu e exímio observador da sociedade, Dominik Aleksei Ivanovitch, o russo.

Identificar um cidadão que está sendo acossado pelo Complexo de Jó é uma missão das mais fáceis. Sabe aquele indivíduo que considera como trabalho bem feito somente a tarefa realizada a custo de muito esforço, suor e desgaste? Ou então aquele que supervaloriza o sacrifício para se chegar ao produto final em detrimento do produto em si? Ele sofre do Complexo de Jó. O suor é seu sangue, o esforço é sua alma e o sacrifício é seu júbilo. Seriam os Complexados de Jó masoquistas?

No futebol, o Complexo de Jó abunda e transborda dos gramados para a imprensa. Alguns jogadores meramente voluntariosos, raçudos, é verdade, mas sem nenhum talento, gozam de um prestígio exagerado junto ao público, dirigentes, colegas e jornalistas. Os maiores expoentes dessa classe de jogador são o Gattuso, do Milan, o Émerson, brasileiro da Juventus e o Makelele, francês do Chelesea. Eles são jogadores de confiança de seus treinadores, ganham cachoeiras de dinheiro e ainda são considerados, pela crítica, xerifões indispensáveis para o time. Suar a camisa, dar carrinho, morder o tornozelo do adversário... virtudes tão idolatradas quanto o drible e o chute certeiro. É o Complexo de Jó, amigo.

Dizer que a Copa do Mundo foi o apogeu dessa tendência é cair no lugar-comum. Uma Copa que teve a Itália como campeã e o Cannavaro como um dos principais destaques só pode ter primado pela força de vontade no lugar da técnica refinada. Com razão, muitos aplaudem a determinação e comprometimento com os quais alguns jogadores encaram treinamentos físicos, as orientações táticas do treinador e a correria em campo. Eu, que nem sou um bad-boy, prefiro a filosofia do Romário, o Baixola. Não treinava, não dava combate, não obedecia o treinador. Mas dava show, que é o bonito do futebol

Nada contra os esforçados, longe de mim. Aliás, talento sem dedicação costuma ser sub-aproveitado. Mas, como diria Anacleto Moscoso, o mal poeta, por mais que teime, rale, lime e sofra, não passará de um mal poeta, e ainda por cima perderá tempo.

Um comentário:

Agostinho Carrara disse...

Anacleto Moscoso é realmente um exímio escritor, apesar de seus temas jocosos, ele se aproxima dos grande poetas parnasianos. Noto uma ligeira semelhança com Olavo. Parabéns Vitor, por lembrar dele.