Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


domingo, 19 de novembro de 2006

Ombudsman

Um sentido de comunidade no Blog
por Fábio Henrique Pereira

A princípio, um site como o Blog do Cacom deveria se firmar enquanto página institucional do CA ou dos aluno da FAC. Aliás, é assim que ele erroneamente se descreve, como o “Blog informativo do Centro Acadêmico de Comunicação da Universidade de Brasília”. Com esse título, a gente acha que se trata de uma publicação de partido comunista clandestino. Mas isso não é verdade.

Esperava ainda que este blog pudesse ser utilizado como espaço de prática e experimentação dos alunos de jornalismo. Seria uma forma de pesquisar e produzir inovações estilísticas antes que o mercado comece a pasteurizar o texto de todo o mundo. Mas não vi nada disso.

O que realmente dá identidade ao Blog do Cacom é o seu sentido comunitário. É um espaço feito por alunos da UnB e para alunos da UnB. Foi o que me chamou a atenção nesses 15 dias de leitura do site.

Não exisite nada de original em um grupo de alunos se reunir para produzir uma publicação alternativa. A ditadura foi terreno fértil para este tipo de jornalismo. Alguns desses informativos, chegaram a ter tiragem de jornal grande, como mostra o livro de Bernardo Kucinski, Jornalistas e Revolucionários: Nos temoos da Imprensa Alternativa.

Ao contrário do que muita gente acredita, a internet não mudou muita coisa em termos de democratização da produção ou do acesso à informação. Apenas tornou mais barato uma prática antiga no meio universitário brasileiro. Publicações como o Blog do Cacom já exisitiam muito antes da Rede Mundial de Computadores ter se popularizado, sejam através de boletins, de informativos ou fanzines.

Talvez tenham mudado as temáticas, como fica evidente neste blog. Nada de jornalismo crítico ou politicamente engajado. As análises publicadas aqui são pontuais: ora criticam a política de transporte no DF, ora “gatos” no futebol brasileiro, ora defendem o Enade e o Cristianismo. Foi-se o tempo em que os alunos do jornalismo se engajavam em torno dos grandes temas da política nacional ou internacional.

Mas será que vale mesmo à pena produzir esse tipo de jornalismo engajado? A verdade é que o mundo mudou, o perfil dos egressos nos cursos de comunicação mudou e os temas que merecem ser discutidos no espaço público da UnB também. Por isso, nada mais acertado do que as escolhas editoriais realizadas pelo site. Saber aonde comer ou a programação cultural da cidade são matérias legítimas, tanto do ponto de vista jornalístico, como do cidadão. Elas criam um senso comunitário na UnB porque partilham os interesses de produtores (jornalistas) e leitores do site (a comunidade estudantil). Elas criam um espaço comum de discussão. E isso é mais jornalístico do que fazem alguns jornalões que preferem cobrir temas desinteressantes ou incompreensíveis para o público.

Ainda em tempo

Algumas matérias carecem de um melhor tratamento lingüístico e jornalístico.

Os textos sobre os grupos religiosos na UnB, sobre a manifestção pró-Cuba, sobre o alunos estrangeiros e sobre o estágio abrem com um nariz de cera que é uma espécie de introdução filosófica e inútil da notícia jornalística. Busquem ser mais objetivos na próxima vez, mesmo que isso implique em recorrer à mesmice do lead. A verdade é que a fronteira entre “jornalismo criativo” e “sub-literatura” é bastante tênue.

Cuidado com a adjetivação nas matérias sobre alimentação no campus. Elas estão parcendo press releases. A impressão é de que foram feitas pelos assessores de imprensa dos estabelecimentos e não pelos jornalistas ad FAC.


Fábio Henrique Pereira é doutorando em Comunicação / Jornalismo e Sociedade pela UnB.

Um comentário:

Paula disse...

muito bom!sincero, direto e, principalmente, respeitoso. Sabe ver os contras, mas aponta os pros!