Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


terça-feira, 28 de novembro de 2006

Artigo

“Ah se o ópio do povo fosse sonhar!”
por Cristiano Zaia

Bem... o que posso dizer de sonhos? A todo instante me subjugam, fazem-me companhia e dão-me força. Força para suportar esses mesmos sonhos que também me relegam à humilde posição de “ser” flutuante e real. Personagem real e verdadeiro. Alguém que todos os dias acorda e, ao voltar pra casa, volta espancado e cheio de ferimentos. Está aí. Sonhos também são instrumento de covardia por parte de idéias que cultivamos conscientemente ou não em nosso imaginário. Podem ferir. Gostaria de ter a oportunidade de só sonhar. Não fosse o fato de no primeiro ou, quanto muito segundo mês em que estivesse sonhando, já não encontrasse mais forças para suportar um corpo repleto de hematomas convidativos de um fim profundo e triste. Morreria depois, em alguns segundos talvez, tamanho o comprometimento físico. Não desisto e sonho. Mas vou devagar.

Não quero aqui dar uma de conselheiro metido a besta ou muito menos profeta ao estilo de Inri Cristo, o sujeito que diz ser o Messias. Embora até agora insista em suportar esse estigma. Mas, se sonhar fosse bobagem, não estaria eu agora a ousar, escrevendo e cuspindo pontos de vista. Quero dizer que, se não fosse bom, sonhar não teria nos proporcionado a paz mundial, que nem sabemos se tem um rosto, uma boca, nariz e, muito menos, um cabelo legal. Se fosse tolo, sonhar não teria nos legado uma Revolução Francesa, a descoberta da cura para a varíola, a tão desejada emancipação feminina e, muito menos, o prazer de saber que gente como Madre Teresa de Calcutá, Malcom X, Mahatma Gandi, Che Guevara, Carlos Prestes ou Juscelino Kubischek existiram um dia. Sem sonhar, não poderíamos sequer, nos dias de hoje, falar mal do presidente, concorrer no vestibular com filhos de bilionários ou hastearmos bandeiras como a liberdade de expressão, justiça social, o fim da intolerância religiosa e a livre escolha para decidir entre ser nacionalista xenófobo ou marxista conservador.

Pasmem! Esses benefícios não são apenas privilégio, única e exclusivamente, da evolução histórica de processos político-democráticos. Ou somente garantias do Estado. O sonho também tem lá seu dedo de culpa nessa história. Em contrapeso, sonhar é tudo que pessoas como Hitler, Sadam Hussein, Osama Bin Laden, George W. Bush, Fernando Collor de Mello ou mesmo Stalin e até aquele simpático rapaz que decidiu metralhar pessoas em uma sala de cinema de São Paulo, pediram aos céus e, mesmo que não por completo, até gozaram de verem alguns deles realizados. Posso estar sendo um defensor assíduo do pensamento maniqueísta do Século XX, do qual sou filho. O mesmo pensamento que me presenteia uma cultura do bem e do mal, criadora de distintas religiões, literaturas, artes, terrorismos, amizades e até a resposta à simples pergunta: “em que vendedor comprar meu saco de pipocas?”.

Não sou antropólogo, historiador, muito menos filósofo, mas chego a uma simplória conclusão a respeito desse dissimulado traje que ostento: “os sonhos são um culturais”. Por isso não sonho com chefes corruptores, ladrões e muito menos com a ousadia de empunhar idéias das quais não comungo. E, se para isso, tenho que receber a estirpe de moço não-engajado ou jornalista parcial, que o seja. Muito embora reconheça que servirei a preceitos corporativistas, capitalistas e até mundanos. Mas é o preço que pagamos por cumprirmos a “Lei da Sobrevivência”, sem, no entanto, precisarmos para isso, extirparmos de nossa moral, pelo menos a tentativa de fazer valer alguns de nossos princípios. Servir sim, vender-se não.

Desde o momento que os povos lutaram, morreram e sangraram por liberdade, pude nascer em paz e diante de uma certeza que me enche os olhos: posso sonhar. Sonhar com coisas tão distantes entre si como o dia em que terei liberdade para me expressar fielmente por meio de palavras ou com o dia em que não mais possa ver crianças vendendo bala no sinal. Portanto, sejam felizes. Sonhem, mas deixem os outros também sonharem. Mesmo que fazer isso não concilie conformidade de opiniões e pensamentos. E mesmo que todos os dias tenha que conformar com muitas dores e machucados.


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2 comentários:

Anônimo disse...

bom demais, meu fí!

Carol Martins disse...

Cristiano, vc manda bem, hein?!
Gostei msm!
;)