Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Coluna - Futebol

Diga-me seu herói, e eu te direi quem és
por Vitor Matos

Domingo último, não mais que por acaso, a “Época” da semana veio cair em minhas mãos. Folheando o semanário ― que surpresa!― achei ali uma matéria que de tão curiosa era digna de ser levada aos meus leitores. Eis do que se trata: a equipe da revista reuniu 33 intelectuais para votarem naquele que julgavam ser o maior brasileiro da História. FHC, por exemplo, votou em Joaquim Nabuco. Roberto Romano preferiu o Padre Vieira. Paulo Coelho, Tom Jobim. Mas o vencedor, com quatro votos, foi o improvável Ruy Barbosa ― a Águia de Haia, não o autor de novelas. As atuações de Ruy na política, na economia e no direito, quando dos primeiros anos da República, renderam-lhe o honroso título. A medalha de prata foi para Machado de Assis e o bronze para Joaquim Nabuco.

Até aí, nada de muito intrigante (salvo o fato de o maior brasileiro da História ter medido apenas hobbittianos 1,57m ). O interessante da matéria aparece mesmo é no fim. Acontece que os internautas também foram consultados sobre o assunto. E, para a maioria das 28 mil pessoas que opinaram, o maior brasileiro de todos os tempos é Chico Xavier ― não me pergunte o motivo. Em segundo na opinião popular aparece Senna e, em terceiro, Pelé.

Esse resultado esdrúxulo chama atenção para dois pontos muito interessantes. Um: no Brasil, intelectuais e cidadãos comuns estão fadados à eterna falta de sintonia. Dois: entre nós, um ex-piloto de fórmula 1 e um ex-jogador de futebol são dignos de serem chamados de “o mais notável brasileiro de todos os tempos”.

Por que atletas são tão idolatrados no nosso país? Suponho que não aconteça o mesmo em outros lugares. Será que o Mika Hakinnen é considerado, pelos finlandeses, um dos maiores nomes da História da Finlândia ― na frente até mesmo do Papai Noel? Acho que não. O Brasil mima exageradamente seus desportistas. Chega-se ao ponto do centroavante da Seleção agir de forma desrespeitosa com o presidente da República e as coisas ficarem por isso mesmo.

Não é a falta de grandes expoentes em outras áreas que faz o brasileiro apegar-se tão firmemente aos seus jogadores, pilotos e corredores. Temo pelo pior: É mais provável que a ignorância quanto a nomes notáveis na literatura ou na música, por exemplo, leve o povo a colher, no gramado do Maracanã ou no asfalto de Mônaco, os seus heróis. Não que Pelé seja um insignificante, longe disso. É o maior jogador de futebol da História, atleta do século, famoso mundo afora, sinônimo de Brasil. O Senna é um pouco menos expressivo, mas vá lá, compreendemos a afeição por ele. Só o que não se compreende é o prestígio exagerado dessas personalidades. Seus feitos pouco contribuíram para a construção de um Brasil mais desenvolvido e, por esse ponto de vista, têm pouca importância. Se o brasileiro pensa que Senna e Pelé são a fina flor do que nosso país já produziu, é porque não têm a menor noção, definitivamente, daquilo que faz uma nação ser grande. Daí o buraco em que estamos.

P.S.1 : Zé do Caixão e Anacleto Moscoso sequer foram citados na pesquisa em questão.

P.S.2 : Se o leitor teve a oportunidade de conferir esse artigo, é porque o mundo sobreviveu a mais um 11 de setembro. Ufa.

4 comentários:

Anônimo disse...

Otimo texto!


ps: existe um erro na ultima linha do 4o paragrafo!

ana elisa santana disse...

erro corrigido!

Maisa disse...

Muito bom!

Anônimo disse...

Feto! Feto!