Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


domingo, 6 de agosto de 2006

Editorial

Nesta semana, foi anunciado pelo governo de Cuba o afastamento do ditador Fidel Castro e seu cargo. Desde 1959, quando assumiu o poder, é a primeira vez que Fidel cede seu posto na ilha socialista. Raúl Castro, irmão e eterno número 2 de Fidel, assumiu a presidência do país. Prestes a completar 80 anos, Fidel teve um sangramento no intestino, e se submeteu a uma cirurgia. O governo cubano diz que ele se recupera bem, mas também há quem diga que ele esteja em estado grave. Entre os exilados cubanos em Miami, espalhou-se o boato de que o ditador já teria morrido. Com o rígido controle de informações no regime cubano, é difícil ter certeza de alguma coisa.

A situação em Cuba é precária desde o fim da URSS, em 1991. Sem a superpotência para lhe prestar auxílio financeiro, desde então a ilha vinha se mantendo com extremas dificuldades. Analistas atribuíam a continuidade da ditadura à sobrevivência de Fidel. Por isto, o afastamento do comandante causa muitos rumores. A verdade é que, apesar do recente reavivamento da esquerda na América Latina, a permanência do regime socialista em Cuba tem um valor apenas arqueológico, por assim dizer. Fidel Castro e seus correligionários chegaram ao poder em 1959 por meio de uma revolução, e desde então têm se mantido no poder às custas de desrespeitos às liberdades individuais. Nas últimas cinco décadas, foram 15 mil fuzilamentos de dissidentes políticos. A liberdade de imprensa inexiste e as eleições ocorrem com apenas um partido – o Comunista.

Quando surgiu a notícia do afastamento de Fidel, de imediato a imprensa brasileira começou a especular sobre o futuro da ilha sem o ditador. Assim como um famoso jornal on line “matou” o governador Mário Covas antes da hora em 2000, e assim como premiê israelense Ariel Sharon também já foi morto e sepultado pela mídia, a imprensa descartou um possível retorno de Fidel ao poder. Politicamente, o prestígio do regime cubano já não tem vida há muito tempo. Resta saber o que será de seu futuro sem o seu comandante.

3 comentários:

Anônimo disse...

Esse é o primeiro editorial que vejo com um conteúdo tão desvinculado da universidade e do Brasil.

O que o Blog tem a ver com Cuba?

PEU disse...

Descordo do anônimo acima... (ou abaixo, não sei...)
Quer dizer que só lhe interessam nformações sobre o teu mundinho??? e o mundão lá fora?!
bom editorial!

Anônimo disse...

Fidel, 80 anos

Frei Betto


Houvesse uma fábrica de produtos lúdicos destinados ao mercado político, talvez “Onde está Wally?” ganhasse a versão “Onde está a esquerda?”.

Uma parcela da esquerda sente-se vexada porque não é tão ética quanto propala; outra, porque o socialismo faliu, exceto em Cuba. Na Coréia do Norte predomina um regime totalitário e, na China, o capitalismo de Estado.

As carpideiras da falência do socialismo não se perguntam por suas causas nem denunciam o fracasso do capitalismo para os 2/3 da humanidade que, segundo a ONU, vivem abaixo da linha da pobreza. Assim, abraçam o neoliberalismo sem culpa. E o adornam com o eufemismo de “democracia”, embora ele acentue a desigualdade mundial e negue valores e direitos humanos cultuando a idolatria do dinheiro e das armas.

O que é ser de esquerda? Todos os conceitos acadêmicos – ideológicos, partidários e doutrinários – são palavras ocas frente à definição de que ser de esquerda é defender o direito dos pobres, ainda que aparentemente eles não tenham razão. Por isso causa arrepio ver quem se diz de esquerda aliar-se à direita.

Fidel é um homem de esquerda. Não fez, entre 1956 e 1959, uma revolução para implantar o socialismo. Motivou-o livrar Cuba da ditadura de Batista, resgatar a independência do país e libertar o povo da miséria. Em visita aos EUA logo após a tomada do poder, foi ovacionado nas avenidas de Nova York.

A elite cubana resistiu a ceder os anéis para que toda a população tivesse dedos. Apoiada pela Casa Branca, instaurou o terror, empenhada em deter as reformas agrária e urbana e a campanha nacional de alfabetização. Kennedy, festejado como baluarte da democracia, enviou 10 mil mercenários para invadir Cuba pela Baía dos Porcos, em 1961. Foram derrotados. E a Revolução, para se defender, não teve alternativa senão aliar-se à União Soviética.

Cuba é o único país da América Latina que logrou universalizar a justiça social. Toda a população de 11 milhões de habitantes goza dos direitos de acesso gratuito à saúde e à educação, o que mereceu elogios do papa João Paulo II em sua viagem à Ilha, em 1998.

Seria o paraíso? Para quem vive na miséria em nossos países – e são tantos – a cidadania dos cubanos é invejável. Para quem é classe média, Cuba é o purgatório; para quem é rico, o inferno. Só suporta viver na Ilha quem tem consciência solidária e sabe pensar em si pela ótica dos direitos coletivos. Ou alguém conhece um cubano que deu as costas à Revolução para, em outra parte do mundo, defender os pobres?

No trajeto do aeroporto de Havana ao centro da cidade há um outdoor com o retrato de uma criança sorrindo e a frase: “Esta noite 200 milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo. Nenhuma delas é cubana”. Algum outro país do continente merece semelhante cartaz à porta de entrada?

A simples menção da palavra Cuba provoca arrepios nos espíritos reacionários. Cobram da Ilha democracia, como se isso que predomina em nossos países – corrupção, nepotismo, malversação – fosse modelo de alguma coisa. Ora, por que não exigem que, primeiro, o governo dos EUA deixe de profanar o Direito internacional e suspenda o bloqueio e feche seu campo de concentração em Guantánamo?

Protesta-se contra os fuzilamentos da Revolução, e faço coro, pois sou contrário à pena de morte. Mas cadê os protestos contra a pena de morte nos EUA e o fuzilamento sumário praticado no Brasil por policiais militares?

Cuba é, hoje, o país com maior número de médicos e bailarinos de balé clássico por habitante. E desenvolve um programa para atender, nos próximos 10 anos, 6 milhões de latino-americanos com deficiência visual – gratuitamente.

Fidel está recolhido ao hospital. O que acontecerá quando morrer, ele que sobrevive a uma dezena de presidentes dos EUA e a 47 anos de esforços terroristas da CIA para eliminá-lo? O bom humor dos cubanos tem a resposta na ponta da língua: “Como pessoas civilizadas, primeiro trataremos de enterrar o Comandante”. Mas será que o socialismo descerá à tumba com o seu caixão?

Tudo indica que Cuba prepara-se para o período pós-Fidel. O que não significa que, como esperam os cubanos de Miami, isso ocorrerá em breve. Em novembro, na Universidade de Havana, o líder revolucionário advertiu que a Revolução pode ser vítima de seus próprios erros e deixou no ar uma indagação: “Quando os veteranos desaparecerem, o que fazer e como fazer?”

Às vésperas de seu aniversário, a 13 de agosto, Fidel já começa a expressar seu testamento político. A maioria dos membros do Birô Político do Partido Comunista tem de 40 a 50 anos, e cada vez mais jovens são chamados a ocupar funções estratégicas. Como 70% da população nasceu no período revolucionário, não há indícios de anseio popular pela volta ao capitalismo. Cuba não quer como futuro o presente de tantas nações latino-americanas, onde a opulência convive com o narcotráfico, a miséria, o desemprego e o sucateamento da saúde e da educação.

Feliz idade e pronta recuperação, Comandante.


Frei Betto é escritor, autor, em parceria com Leonardo Boff, de "Mística e Espiritualidade" (Rocco), entre outros livros.