Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


segunda-feira, 28 de agosto de 2006

Artigo

Complexo de Clark Kent
Por Gabriel Castro

Carlos Chagas é um dos mais antigos jornalistas em atividade do país, mas nunca estudou jornalismo. O seu único diploma é o de advogado. Ele anda dizendo que cada vez menos pessoas querem ouvir o que ele tem a dizer. Elas têm razão: em entrevista a este blog, Chagas disse acreditar que a diferença entre um jornalista diplomado e um não-diplomado é tão grande quanto a diferença entre um médico e um açougueiro. Tão grande quanto a diferença entre um camelô e um advogado. Ele não é exceção: quando se discute a obrigatoriedade do diploma, os jornalistas adoram se comparar com os médicos. Dizem que um cirurgião não pode operar sem ter estudado. É verdade. Mas um jornalista é infinitamente mais insignificante do que um cirurgião, e é um milhão de vezes mais complexo aprender medicina do que aprender jornalismo.

Quando Guilherme Portanova, repórter da Globo, foi seqüestrado pelo PCC, Marcelo Beraba, presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo bradou: “O que aconteceu neste final de semana em São Paulo não foi um problema da imprensa ou dos jornalistas. É um problema do país”Não é. É só um problema dos jornalistas e dos responsáveis pela segurança pública. O resto da população não será afetado. Um empresário seqüestrado é só um problema da família dele, não é um obstáculo para a nação. Uma criança desaparecida é um pesadelo para seus pais, mas a pátria segue seu caminho sem sobressaltos. Se os jornalistas fossem 30% do que acreditam ser, o planeta estava salvo. O seqüestro de Portanova foi tão grave quanto os ataques à OAB e ao Ministério Público e menos grave do que morticínio de policiais. Um policial faz muito mais falta do que um jornalista. A função de um médico é infinitamente mais importante do que a de um jornalista. Um advogado precisa de muito mais conhecimentos específicos do que um jornalista.

Na verdade, trata-se de uma discussão estéril: hoje em dia o espaço para não-diplomados é mínimo, e está cada vez menor. O maior rancor dos jornalistas e aspirantes destina-se contra os artistas, modelos e dançarinas que conseguem espaço no meio jornalístico mesmo sem terem feito faculdade. É claro que tudo não passa de medo da concorrência (de fato algumas dançarinas são mais preparadas do que os diplomados), ainda mais quando se constata que os próprios críticos não conseguem citar 5 nomes de não-jornalistas trabalhando no ramo.

Em cinco anos de faculdade, poucos estudantes de jornalismo aprendem mais do que aprenderiam num curso técnico ou em seis meses de experiência prática numa redação. Um grande número deles sai da faculdade sem noções básicas de gramática. A realidade é simples: um bom jornalista tem sobretudo honestidade intelectual, e isso só se aprende a ter sozinho, longe das cátedras. O problema é esse: firmeza de caráter nunca foi o nosso forte.

Definitivamente, boa parte dos jornalistas brasileiros merece ocupar outra função. Talvez a de açougueiro.

Os artigos não refletem necessariamente a opinião deste Blog, sendo eles de responsabilidade de seus autores.

5 comentários:

mariana-unb disse...

tipo vc
vamos rever o uso da vírgula
abraços

André Souza disse...

Discordo totalmente de dois pontos:

1) "Mas um jornalista é infinitamente mais insignificante do que um cirurgião, e é um milhão de vezes mais complexo aprender medicina do que aprender jornalismo."

O jornalista pode distorcer e manipular a realidade, e tem um espaço para expressão que a maioria da população, inclusice os cirurgiões, não tem. Seria assim mais importante que um cirurgião? Talvez sim, talvez não, mas definitivamente não é infinitamente mais insignificante.

2) "[O seqüestro de jornalistas] é só um problema dos jornalistas e dos responsáveis pela segurança pública. O resto da população não será afetado. Um empresário seqüestrado é só um problema da família dele, não é um obstáculo para a nação. Uma criança desaparecida é um pesadelo para seus pais, mas a pátria segue seu caminho sem sobressaltos."

De fato, quando uma pessoa é raptada para exigir pagamento da família ou para qualquer outro motivo bem particular, e essa pessoa vem a ser jornalista, o restante da população não será afetado. Mas quando um jornalista é seqüestrado com o fim de obrigar um veículo de comunicação a propagar mensagens do grupo que promoveu o rapto, a situação fica bem diferente. O grupo criminoso dispõem de uma arma para poder fazer propaganda para todo o resto da população. Imagine, num caso extremo de agravamento, não assistir mais ao JN, mas a um noticiário terrorista no horário correspondente. O seqüestro dos dois empregados da Globo é sim um problema do país.

Anônimo disse...

De acordo com a posição do blog, sugiro ao CACOM a luta pela criação das disciplinas: Corte de Carnes Vermelhas I e II, Corte de Aves, entre outras e solicitar que o diploma e o histórico venham em um papel mais fino, que sirvam para embrulhar, em alguns casos, meio quilo de carne moída...

Anônimo disse...

Mas vc é idiota ou o que? Você, anônimo, não leu que este artigo não necessariamente reflete a opinião do blog?

Anônimo disse...

acontece que, antes, não havia esse comentário no final do artigo.
Foi adicionado despues.