Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Futebol!

Uma quarta-feira nunca é igual a outra

Por Vítor Matos

(A confecção desta coluna foi adiada até a madrugada, na esperança de que algum avião fosse lançado contra um prediozinho que fosse. Nada. Outro 11 de setembro que passa em brancas nuvens.)

Boa noite, amigo leitor. A essa altura do relógio, não posso me dirigir a mais ninguém, a não ser você. Há também os morcegos que voam pela minha cela, mas estes não se interessam em nada que não seja beliscar os frutos da jaqueira, experimentalmente cultivada ao pé da cama. Portanto, estou tão solitário quanto se pode estar numa madrugada abafada às vésperas do apocalipse (porque se o calor que está fazendo não for prenúncio do fim dos tempos, não sei mais o que pode ser) . O sono não vem. Conversemos.

Observando essas duas ímpares criaturas – os morcegos e as jacas – concluí que a Natureza reservou sua benevolência para apenas uns poucos privilegiados. (O que vai ser dito aqui é mais fácil de constatar do que de explicar, mas tem uma pertinência para a filosofia humana absolutamente indispensável). Pois bem, morcegos e jacas, dizíamos. É impressionante como alguns entes possuem uma espécie de brilho próprio constante, adquirido de forma inata, quase como um dom. Não importa o que eles dizem – se tropeçam nas palavras, se declamam poesia, se não dão um pio - ; não importam suas atitudes, pueris ou inspiradoras; não importa se nos maltratam. Parece que têm sempre uma luz, uma brisa, uma trilha sonora a seu serviço, lhes conferindo graça. Os morcegos da minha cela são encantadores até quando acordam. (De cabeça pra baixo)

Assim também é a quarta-feira, o dia mais charmoso da semana útil. É o domingo sem missa. Qual seria a razão de tanta pompa? No domingo sabe-se que Deus descansou; no sábado, fez a mulher. O que teria feito ELE na quarta? O Obina? As barras de cereal?

O fato é que quartas-feiras são dias diferenciados. Logo ao acordar, o espírito já se encontra em estado de leveza incomum. O canto habitual dos pardais é substituído pela ária de invisíveis rouxinóis, a névoa de ar seco no céu – oh, que grata surpresa! – revela-se como a mais escocesa das brumas das charnecas. E, ao longo de todo o dia, basta ligar a TV para ser agraciado com uma partida de futebol. Europa, América Latina, Massachusetts (especialmente hoje). Quarta-feira é o Dia Mundial da Bola em Campo.

Logo mais tem Brasil e México, em Boston. Todos estão convidados para assistir o jogo lá no Sapão. Pizzas são uma possibilidade.

E, se tamanha proeza fosse possível, hoje é uma quarta ainda mais emocionante que as demais. Ou não é verdade que teremos briga de foice no Senado? Ou não é verdade que Vossas Excelências vão conspirar, trair, dissimular? Isso sem falar na hipótese de que, ao final do dia, podemos ter carne nova jogada aos leões. Muito se fala que uma eventual absolvição do Renan Calheiros, o senador do gado, mancharia de lama o Senado, a Nação. Pode ser. A quarta-feira, no entanto, salvaria-se incólume, majestosa como sempre. Assim como os morcegos da minha cela, não importa os dejetos que ela produza.

2 comentários:

Anônimo disse...

cade o resto desse blog?

Rafael disse...

Esse texto está melequento.