Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007

Futebol!

Os 14 de Potosí
por Vítor Matos

Histórias de heróis são sempre contadas e recontadas. Elas inspiram, dão ânimo, nos fazem crer na raça humana. Uma das mais famosas passou-se nas planícies clássicas da Antigüidade e ficou conhecida como a Batalha das Termópilas. Contam os registros que, sedento por realizar seu mais ambicioso sonho, o poderoso rei Xerxes, da Pérsia, organizou uma campanha para conquistar a Grécia. Marchou com mais de cem mil soldados ― o maior exército já visto até então ― rumo à batalha. O rei Leônidas, de Esparta, correu para fazer frente às hostes inimigas. A resistência espartana, no entanto, contava com apenas 300 guerreiros. Os gregos, evidentemente, foram massacrados naquela ocasião, mas sua bravura ganhou os séculos.

Anos mais tarde, numa ode à intrepidez daqueles homens, o renomado autor de histórias em quadrinhos, Frank Miller, lançou a obra-prima “Os 300 de Esparta”. A revista narra o feito heróico dos soldados de Leônidas e é uma das mais prestigiadas pelo público fã de quadrinhos. Esse ano, inclusive, chegará aos cinemas. Todavia, já está ultrapassada. E Miller saberia disso se acompanhasse o futebol brasileiro.

Porque, na noite da última quarta-feira, um grupo de homens mostrou ao mundo o verdadeiro significado da palavra coragem. Chovia ferrenhamente na cidade boliviana de Potosí. Não bastasse a chuva forte encharcando os ossos, também um frio de quase zero grau castigava a região. Para alguém acostumado às condições normais de pressão atmosférica, a situação era ainda pior, porque Potosí fica a 4000 metros de altitude, a segunda cidade mais alta do mundo. O estádio local estava abarrotado, o gramado era ruim, o árbitro de capacidade duvidosa. Um condor piou no céu, sinal de maus augúrios.

Diante de tais adversidades, o Flamengo entrou em campo para enfrentar o Real Potosí, time da casa, pela primeira rodada da Taça Libertadores de 2007. Desde os minutos iniciais de partida, era visível que o ar rarefeito da altitude andina estava prejudicando o time carioca. Os jogadores não conseguiam correr, tinham dificuldades para bater na bola e não podiam desenvolver seu padrão normal de jogo. Enquanto os flamenguistas faziam um esforço sobre-humano para manter-se de pé, os bolivianos percorriam o gramado com a lepidez de um gnu na savana africana. Era natural que o Potosí chegasse ao primeiro gol, e assim foi. Era de se esperar o segundo; ele não tardou. Uma goleada estava anunciada.

Mas então veio o segundo tempo e, com ele, momentos que Homero gostaria de estar vivo para narrar. Movidos tão apenas pelos seus brios ― pois àquela altura o corpo já não respondia ― os jogadores rubro-negros lançaram-se numa ensandecida busca pelo empate. Já não se importavam com a dificuldade de respiração, com o esgotamento físico; entregaram-se à sua missão como guerreiros que se sacrificam por grandes causas. E eis que o Flamengo, despertando a compaixão dos deuses do futebol com aquela aflição, conseguiu empatar antes mesmo da metade da etapa final. E o que se viu nos minutos seguintes foi um espetáculo da obstinação. Na luta para manter o resultado, os jogadores flamenguistas desmaiaram em campo, precisaram recorrer para o tubo de oxigênio à beira do gramado, exauriram suas forças. Chuva, frio, 20 mil torcedores contra, falta de ar... e se Xerxes estivesse lá, também ele seria tragado pela bravura dos rubro-negros.

Os 14 de Potosí ― os 11 titulares mais os 3 que entraram ao longo da partida ― provavelmente não ganharão uma revista em quadrinhos ou um filme, muito menos entrarão para os anais da humanidade. Mas, desde já, fica o apelo desta coluna para que, no próximo 7 de setembro, eles desfilem ao lado dos pracinhas. É o mínimo que se pode fazer por homens que deram uma lição tão valorosa para todos nós, brasileiros. Não só quanto à garra, à força de vontade. Sobretudo, mostraram como se deve agir diante dos bolivianos, quando nos falta gás.

5 comentários:

Anônimo disse...

É muito flamenguismo pro meu gosto... Todo mundo que joga por lá deve ter esse problema... Por que tanto charme pro Flamengo? Empatar com um time chamado Real Potosí devia ser motivo de vergonha! Os caras devem ser aquele estilo amador- um bando de criadores de lhamas que treina em campo society e se classificou graças a um campeonato como o boliviano... Muito ufanismo por pouca honra...

Anônimo disse...

Pra quem quer falar de futebol, tá trocando demais as bolas. Então vamos estudar, né?

A Batalha das Termópilas, que inclui a resistência dos "Trezentos de Esparta" foi narrada principalmente por Heródoto, na obra A Guerra do Peloponeso. Homero escreveu a Ilíada e a Odisséia, sobre a Guerra de Tróia, quase mil anos antes.

Além disso, a Batalha das Termópilas é uma história de sacrifício, excelência e disciplina. O que o Flamengo fez foi, no mínimo, superar as próprias deficiências. Por mais que você enfeite o seu texto, a comparação só faz encolher ainda mais esse pobre time.

Anônimo disse...

"Anais da humanidade". Quem escreve um negócio desse tem que tomar dentro.

André Souza disse...

Em nenhum momento é dito que Homero narrou a batalha das Termópilas. Leia mais atentamente.

André Souza disse...

E não leve tão a sério a comparação.