Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


domingo, 5 de novembro de 2006

Ombudsman

Ombudsman da existência
por Gustavo de Castro*

Quando fui convidado para ser por alguns dias o "ouvidor" desta agradável página, pensei no que poderia analisar a partir das matérias/textos/artigos veiculados. E olhando para os textos publicados aqui durante a semana fico a pensar que este trabalho de ouvidor remete mais ao princípio de uma "escuta poética", do que de crítico para com os colegas.

Essa minha "escuta poética" enxerga na foto tirada por Emília Silberstein, no texto do MIguel Eduardo dos Reis, "Elementos de Lembrança", no "Ultra-Som", da Carolina Menkes e da Carolina Martins, no "Chega Novembro", da Ana Elisa, e assim por diante, que a semana foi dominada pelo elemento lírico e poético.

Tive sorte então porque a poesia é a praia que escolhi para armar a minha barraca e fazer a minha fogueira. Fico a pensar no por que destes textos estarem todos afinados com a questão poética. Talvez o fim do semestre cavalgando em nossa direção, talvez a necessidade do poético diante de tanta prosa vivida, talvez no olhar destes colegas, que viam na lembrança, numa foto, no anúncio do mês de novembro, a oportunidade para um encontro com a dimensão poética.

Pena que o nosso jornalismo tenha perdido isso e se entregue à prosa de forma tão veemente, a ponto de reservar poucos espaços para o lírico, o devaneante, o sonho, e tanto espaço para o trágico, o horrendo, o cotidiano. Pena maior é isso ser uma ideologia nas faculdades, de modo que há muito tempo quero criar junto com outros professores um jornal de poesia, arte e literatura, mas ninguém acha que esta idéia vinga, porque o jornalismo acostumou-se às más notícias.

Fico a olhar para a foto da Emília e vejo que aquela sombra fala muito mais do que muitos textos. Aquela sombra é uma aspiração, um desejo, uma vocação talvez. Aquela sombra nos chama, nos convoca a uma reflexão sobre o que temos vivido e o que desejamos viver. Assim é que uma imagem pode nos remeter a muitas interpretações. Do mesmo modo, fico a pensar por que o jornalismo perdeu essa sua capacidade de fazer pensar e de apenas informar, opinar, interpretar, sendo que estas duas últimas são limitadas a uns poucos opiniáticos.

O temos de ser, sejamos jornalistas ou não, é ombudsman da vida, da nossa vida, e não apenas de jornais, blogs, sites, etc. Ser ombudsman da vida significa estar atento aquilo que não aprovamos para nosso cotidiano ou para nossa qualidade de vida. Sou muito mais partidário deste jornalismo praticado neste blog do que o feito por um Correio da vida. Dirão que isto é alienação, eu sei. Mas não me importo de editar o que quero e o que não quero para mim, do meu jeito. E o meu jeito é a rejeição à grosseria do mundo e dos fatos. Se informar sim, mas sem deixar de perceber que as sombras (das árvores e da vida) são ambivalentes. Remetem a descanso, mas também avisam das trevas que portam consigo.

Escrevi um poema certa vez que dizia: "Os homens são como as nuvens. Também carregam as suas sombras". O que tem sido o nosso jornalismo? Sombras de trevas ou de descanso? Talvez ambos.


*Gustavo de Castro é professor de Comunicação da Universidade Católica de Brasília (UCB), ex-professor da Faculdade de Comunicação da UnB.

4 comentários:

Anônimo disse...

Sobrou poesia e faltou observação. Não era o ombudsman do blog? Pareceu Dia do Leitor...

Carol disse...

Sobrou observaçao a quem consegiu para pra pensar, talvez seja o ombudsman mais produtivo não só para nós do blog,mas para todos os jornalistas de verdade.

Anônimo disse...

Não, ficou ruim mesmo

Anônimo disse...

O 3º anônimo concorda com o 2º e o 1º. Ficou péssimo!!!