Notas Expressas

Tivemos um enxugamento do nosso corpo de repórteres, mas estamos, aos poucos, retomando o ritmo de publicação de matérias.
(atualizado em 20 de outubro de 2007)


sábado, 15 de julho de 2006

Eu nasci para...

por Isabela Veiga

Nasci para morrer derretendo numa calda de chocolate borbulhante. Nasci para brigas de travesseiro e pular corda. Nasci pra filosofar sobre a bolha de sabão. Nasci pra conversar com o vento.

Nasci pra estar sempre pensando em alguém, nasci para saudade. Nasci pra ser arrebatada por uma vontade louca de sair correndo em um domingo à noite. Nasci para ver as coisas com a mão. Para responder a última pergunta do show do milhão.

Nasci para desenhar no caderno. Durante a aula. Aliás, nasci pra ter alma de cientista e vocação de artista. Não nasci pra usar biquíni, barriga de fora ou tomara que caia. Nasci para tomar tombos homéricos em escadas. Nasci para amar cheiro de terra molhada.

Nasci para tomar banho de chuva e beijar na chuva. Nasci para ser gorda. Não sou. Nasci para pintar com o dedo. Nasci para ser pequena, forte, ativa e guerreira. Nasci para fazer coisas que os outros não entendem.

Nasci para olhar o céu. Nasci para gostar mais de amarelo que de marrom. Nasci para usar canetas bic. Nasci para usar tênis. Nasci para ter cartão de crédito. Não tenho. Nasci para voar, nem que seja no pescoço da baranga que conversa com meu namorado. Aliás, nasci para ter namorado. Nasci para não gostar de fofoca, mas gosto. Nasci do avesso.

Nasci para ser alta, morena, olhos verdes. Não sou. Nasci para torcer pelo Botafogo, e aí, nasci para sofrer. Nasci para chorar muito. Nasci para, um dia, colocar uma mochila nas costas e ir embora.

Nasci para me arriscar. Pouco, porque nasci para sofrer do coração, de acordo com a genética. Nasci para comprar papel higiênico verde. Nasci para ter um mundo encantado. Nasci para não deixar as fadas morrerem. Todos os dias, digo a elas: “- Eu acredito!”

Nasci para ser exageradamente sentimental. Nasci para ser um anjo, como minha mãe diz. Nasci para ser louca como muita gente pensa. E nasci para ser um borrão na vida dos que se esqueceram de que eu nasci para passar pelas vidas das pessoas.

Isabela é estudante do 3º semestre de Audiovisual na UnB.

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2 comentários:

Isabel disse...

Gostei Isa!
E eu nasci para morar com pessoas paranóicas por papel higienico verde. Não moro. Eu perfiro o branco!

Alencastro disse...

Ahh...Isabela,leve...soltinha! Uma praseirosa leitura!
...Pés bem plantados no chão e dom de voar.
Pois voe, voe, mas siga a linha do horizonte!